POR BENOIT GRANGÉ

O banco de varejo mudou drasticamente nos últimos anos, com o surgimento de bancos digitais e neobancos voltados para tecnologia, como Dave e Chime, que pressionaram as instituições financeiras incumbentes a desenvolver suas próprias ofertas mobile-first. Agora, esse mercado competitivo está novamente passando por uma disrupção com dois dos maiores varejistas dos EUA: Walmart e Walgreens.

As empresas anunciaram novas iniciativas bancárias destinadas a capturar o consumidor médio e monetizar seu ativo mais valioso: os relacionamentos leais que mantêm com os clientes. Uma pessoa comum acessa o Walmart (loja física e site) cerca de 30 vezes por ano, de acordo com pesquisas. 

Em parceria com a fintech InComm Payments, a Walgreens disponibilizará no segundo semestre de 2021 suas novas contas bancárias online e em 9 mil de suas lojas na América do Norte. Com quase 80% da população dos EUA morando a menos de 8 quilômetros de um Walgreens — garantindo o fluxo de pessoas em suas lojas — a empresa pode ser uma forte candidata em muitas áreas do país onde agências bancárias fecharam definitivamente. Além disso, o Walmart (em parceria com a Ribbit Capital) está criando sua própria fintech,  Hazel, que provavelmente dará origem a um amplo ecossistema de serviços financeiros, como contas bancárias, empréstimos, pagamentos digitais e muito mais, em um “super aplicativo”. Semelhante ao WeChat na China, esse aplicativo integraria muitos aspectos da vida do consumidor, incluindo comércio, finanças, saúde e pagamentos, tudo em um único hub.

Walmart e Walgreens são apenas os primeiros de muitos players não tradicionais que entrarão para os serviços financeiros nos próximos anos — modificando o significado e status dos bancos. É fácil entender por que esse setor está crescendo: tanto incumbentes quanto novos entrantes querem capturar os dois bilhões de pessoas atualmente sem banco em todo o mundo; além dos quase 169 milhões de americanos que fazem transações bancárias regularmente em dispositivos móveis.

A maioria das pessoas usa a mesma conta bancária por décadas. Esses varejistas vão redefinir o setor de serviços financeiros como o conhecemos? Ou os bancos existentes desenvolverão suas ofertas mobile-first o suficiente para manter seus clientes fiéis e permanecer competitivos? 

Aqui estão algumas pistas para ter em mente no desenrolar desse jogo:

PARCERIAS COM FINTECHS EM SERVIÇOS FINANCEIROS BASEADOS NA FIDELIDADE À MARCA

Varejistas como Walmart e Walgreens já desfrutam da fidelidade do cliente e do reconhecimento da marca. Ao fazer parcerias com fintechs mais ágeis para fornecer os serviços digitais que os consumidores desejam, eles estão aproveitando a mudança em direção ao open banking que já está acontecendo no setor. Os bancos tradicionais também devem buscar parcerias com fintechs inovadoras para fornecer os tipos de serviços convenientes que os consumidores desejam, como carteiras digitais, soluções de ponto de venda móvel e empréstimos P2P.

NOVOS PLAYERS VÃO OFERECER UMA EXPERIÊNCIA EXCEPCIONAL E SEGURA AO CLIENTE

Os varejistas precisam reforçar suas práticas de segurança cibernética para que os consumidores confiem neles tanto quanto confiam em seus bancos. Ao lidar com dados financeiros confidenciais, eles se tornarão alvos de crimes cibernéticos e precisarão investir em segurança de dados, antifraude, análise de risco e tecnologias fortes de autenticação, como biometria, para evitar ataques. Os bancos incumbentes têm a vantagem de poder mostrar que estão na vanguarda da segurança cibernética há muitos anos.

PREFERÊNCIAS DO CONSUMIDOR POR BANCO DIGITAL SERÃO IMPULSIONADAS POR NEOBANCOS

Ofertas inovadoras de neobancos estão impulsionando as preferências dos consumidores por mais serviços digitais. Em 2025, espera-se que mais de 40 milhões de consumidores tenham contas exclusivamente digitais. Por exemplo, a Chime oferece aos clientes acesso antecipado aos seus contracheques. A fintech tem sido mais bem-sucedida do que os bancos tradicionais em atender aos desejos dos consumidores por novos recursos e ofertas de produtos, de câmbio P2P a convenientes opções de pagamento móvel. Da mesma forma, entrantes como o Walmart são especialistas em oferecer uma experiência mobile sofisticada que os consumidores adoram. Os bancos incumbentes precisarão aprender e melhorar sua experiência mobile-first se quiserem competir.

BANCOS VÃO RECORRER À IA E AO ML PARA AVANÇAR NOS MODELOS MOBILE-FIRST

Os varejistas aprenderam a aproveitar a inteligência artificial e o machine learning para obter um conhecimento profundo dos comportamentos do consumidor. Os bancos tradicionais devem fazer o mesmo para entender melhor seus clientes, fornecer ofertas e serviços mais personalizados e agilizar os processos. Ao aplicar as tecnologias de IA e ML aos enormes volumes de dados dos consumidores, os bancos podem verificar as identidades e evitar fraudes de apps enquanto transformam a abertura da conta em um clique.

SOBRE O AUTOR

Benoit Grangé é chefe de tecnologia da OneSpan.