POR JENNIFER GOTTLIEB E ALEXANDER PLOSS

Enquanto o mundo estava em estado de calamidade com a pandemia de SARS-CoV-2, o papel dos virologistas, especialistas em doenças infecciosas, epidemiologistas e outros cientistas ficou em evidência. Esses especialistas em saúde pública não ficaram apenas encarregados de interpretar os dados médicos e científicos que evoluíam rapidamente, eles foram tirados dos bastidores e trazidos para os holofotes, aparecendo na mídia 24 horas por dia. As pessoas queriam respostas — mas de onde viriam? Foi assim que a comunidade científica se tornou tão importante, a partir de sua capacidade distinta de avaliar as evidências com um olhar científico e de fornecer pontos de vista imparciais sobre suas implicações.

O primeiro desafio enfrentado pela comunidade científica foi como abordar o próprio vírus — o que era, o que não era, como poderia ser transmitido e os verdadeiros riscos envolvidos. Comparações com outros patógenos virais surgiram quase que imediatamente, particularmente comparações com o resfriado comum e a gripe sazonal. Embora elas tenham sido úteis para ajudar o público a entender a natureza do vírus em si, muitas vezes foram extrapoladas incorretamente e levaram a afirmações imprecisas e mentirosas. Frases como “é apenas uma gripe forte” ou “atinge apenas idosos” levaram as pessoas a minimizar o impacto potencial que esse novo coronavírus poderia ter na população. A verdade é que os cientistas estavam aprendendo em tempo real qual era a natureza do vírus; não havia um “manual” de recomendações pré-estabelecido. A cobertura ininterrupta da mídia, junto a uma população acostumada a pesquisar no Google assuntos relacionados a saúde, fez com que a paciência de muitos se esgotasse, e a ânsia por respostas acabou fazendo com que os pontos de vista de pessoas comuns fossem aceito como fatos, em vez de opiniões.

SEMÂNTICA E PRECISÃO CIENTÍFICA IMPORTAM

Em geral, a ciência nem sempre foi colocada no contexto apropriado, muito menos procurada sobre certos temas — e muitos subestimaram a rapidez com que mensagens podem ser distorcidas. Mais recentemente, vimos isso acontecer quando um quarterback de destaque da NFL pegou Covid-19, algo que levou a um debate amplamente televisionado sobre o significado de “imunizado” versus “vacinado”, alegando que ele havia sido imunizado por meio de uma terapia alternativa. Podemos aprender com esses erros e confusões para lidar melhor com futuras crises de saúde pública. Precisamos identificar porta-vozes da ciência logo no início, e não apenas criar mensagens, mas trabalhar com eles para identificar onde a potencial falha na comunicação/distorção indevida pode ocorrer — e então desenvolver estratégias para resolver esses problemas à medida que surgem, em tempo real.

O QUE DEU ERRADO — ESPAÇO PARA VOZ VERSUS QUALIDADE DE VOZ

Cada vez mais, na pandemia, pessoas não ligadas à saúde como políticos, comentaristas e influenciadores começaram a ganhar espaço na discussão sobre o vírus – apesar de não terem propriedade para falar do assunto. Em vez de dar espaço a cientistas da área, para que eles interpretem os dados e expliquem a importância de medidas específicas de saúde pública, pessoas com interesses próprios e agendas políticas usaram suas plataformas para espalhar a desinformação. Como resultado, as políticas de uso de máscaras, distanciamento social, regulamentação comercial, segurança das vacinas e questões relacionadas foram distorcidas e politizadas. As opiniões se tornaram mais enérgicas, e, logo, argumentos de pessoas não qualificadas passaram a ser consideradas um “debate legítimo” e não o que de fato eram: pessoas sem conhecimento, inventando argumentos contra especialistas.

Até mesmo determinar quem de fato era um “especialista” tornou-se tarefa árdua, uma vez que muitos comentaristas das mídias tradicionais e sociais passaram a tratar qualquer médico ou cientista como iguais. Os especialistas em questões relacionadas ao vírus e seu impacto são virologistas, epidemiologistas e aqueles que estão na linha de frente do tratamento. Infelizmente, essa ampliação e alargamento do termo “especialista” só trouxe mais confusão ao debate e reduziu a qualidade da opinião científica sobre o assunto.

No futuro, é fundamental que profissionais de comunicação, incluindo a grande mídia, deem espaço a vozes legítimas da ciência para que tenhamos uma discussão relevante, não apenas com pessoas com argumentos infundados ou que se alinham a determinadas crenças políticas. Ciência e conjectura política devem permanecer separadas, sobretudo quando a saúde pública está em jogo, como vemos agora.

O QUE APRENDEMOS E COMO PODEMOS AVANÇAR

Aprendemos muito nos últimos 20 meses, e isso nos ajudará a nos prepararmos melhor para futuras crises de saúde pública. Há cinco lições principais que podem ser aplicadas na comunicação científica, para que estejamos prontos na próxima emergência deste tipo.

1) Utilize dados e I.A. na estratégia de comunicação

 Essas ferramentas são cruciais para a escuta social e análise e devem ser utilizadas desde o início para reconhecer vozes legítimas e dar espaço a elas em canais tradicionais e digitais de comunicação, a fim de garantir que elas sejam ouvidas, diminuindo a cacofonia da desinformação. Por exemplo: as ferramentas de dados e I.A. nos permitem descobrir vozes confiáveis, mas com alcance limitado, que podem contribuir muito para o debate. Podemos então amplificar essas vozes, aumentando sua presença no ambiente digital, enquanto promovemos suas estratégias e conhecimentos para apoiar especialistas de outras esferas de influência.

2) Identifique influenciadores científicos tanto global quanto localmente

Normalmente pensamos em cientistas de organizações governamentais como o influenciador ideal. Mas muitas das vozes mais importantes podem ser encontradas em médicos comunitários e agentes de saúde pública, que podem ter influência em nível local e em comunidades tradicionalmente carentes. Aprendemos com a vacina que havia uma variação na clareza da mensagem dependendo da demografia e da região, especificamente nos EUA. Também aprendemos que precisávamos identificar vozes científicas relevantes para comunidades não brancas, onde há um ceticismo maior devido a injustiças históricas. Por exemplo, a cidade de Nova York fez um ótimo trabalho ao estimular a vacinação em diversos bairros com profissionais da saúde não brancos e com mensagens em diversas línguas, em diferentes plataformas – nas redes sociais, em eventos esportivos e em terminais de ônibus, para citar alguns. Esforços locais como esse podem ser muito mais eficazes para estimular mudanças em comunidades carentes do que campanhas nacionais ou mundiais, que não possuem o mesmo nível de relevância pessoal.

3) Especialistas devem ter voz — seja na internet ou no mundo real

 Não podemos subestimar a importância de garantir que especialistas em ciência tenham voz nos canais certos para comunicar as mensagens certas, aos públicos certos. Considerando que o digital é o meio em que maioria das nossas comunicações ocorrem hoje, uma presença online ativa é necessária agora mais do que nunca. Embora as publicações tradicionais e encontros acadêmicos continuem a ser um espaço essencial para as comunicações científicas, o envolvimento no diálogo científico por meio de canais de mídia social e outras plataformas digitais é fundamental para garantir a precisão entre os principais públicos de interesse, outros médicos e profissionais de saúde, como também consumidores e pacientes. Alguns dos melhores para a tarefa são virologistas, epidemiologistas e cientistas de instituições como a Escola de Medicina Monte Sinai, a Universidade da Carolina do Norte e a Universidade de Yale, entre outras. Esses médicos especialistas em saúde pública possuem centenas de milhares de seguidores que interagem ativamente com seus conteúdos nas redes sociais, diariamente.

4) Precisão, simplificação e contexto são essenciais

As mensagens devem ser cuidadosamente elaboradas para manter a precisão e, ao mesmo tempo, fornecer contexto, simplificar o conteúdo e evitar ambiguidades, conforme necessário. Uma avaliação completa e um planejamento de cenário devem ser feitos para que qualquer mensagem possa ser esclarecida imediatamente após qualquer questionamento. A mensagem é apenas uma parte — as objeções e contra argumentações também precisam de atenção.

5) Identifique e corrija o quanto antes, e frequentemente

Monitorar mensagens em tempo real, novamente por meio de mídia social e análises, é a melhor maneira de ver se informações incorretas estão ganhando força, para então, rapidamente, montar uma equipe de especialistas para esclarecer e ajudar a conter a desinformação. A reação rápida da comunidade científica à desinformação sobre os usos experimentais de hidroxicloroquina e ivermectina como cura de Covid-19 é um excelente exemplo da necessidade de respostas rápidas e coordenadas para dissipar informações falsas. Peter Hotez, médico e reitor da National School of Tropical Medicine da Baylor, notadamente se tornou uma das principais vozes científicas durante a pandemia para dissipar esses mitos, enquanto trazia outros especialistas para criar uma frente unida contra a desinformação. Na era digital de hoje, onde as informações, tanto verdadeiras quanto falsas, circulam na velocidade da luz, devemos ajudar a comunidade científica a estar um passo à frente, para garantir que o conhecimento científico e a análise de dados concretos cheguem a todos.

SOBRE OS AUTORES

Jennifer Gottlieb é presidente global da Real Chemistry, uma empresa de dados, tecnologia e soluções digitais que fornece serviços de comunicação e marketing para a comunidade médica. Alexander Ploss é professor associado de biologia molecular na Universidade de Princeton e foi pioneiro no desenvolvimento de modelos alternativos em potencial para o Covid-19.